Entrevista Giuseppe Oristanio: 'Ser ator para mim é trabalho. Estrelismo não faz sentido. Todos merecem gentileza'

Giuseppe Oristanio: 'Ser ator para mim é trabalho. Estrelismo não faz sentido. Todos merecem gentileza'

Ator comemora 50 anos de carreira, lança um livro com histórias deliciosas sobre sua trajetória e prepara, no teatro, um monólogo para retratar os últimos anos de vida do escritor Guimarães Rosa

  • Entrevista | Eduardo Marini, do R7

Resumindo a Notícia

  • O paulistano Giuseppe Oristanio integra o elenco da RecordTV há 15 anos.
  • Carreira começou ao acaso, após convite de cliente da fábrica onde trabalhava em São Paulo.
  • Fez 12 novelas na RecordTV, entre elas Chamas da Vida, Os Dez Mandamentos e Gênesis.
  • Estreia como ator foi aos 14 anos, como Pedrinho, na peça O Sítio do Picapau Amarelo.
Oristanio: 'O livro foi um presente, um bolinho que dei a mim mesmo pelos 50 anos de carreira'

Oristanio: 'O livro foi um presente, um bolinho que dei a mim mesmo pelos 50 anos de carreira'

Divulgação

Em 1972, prestes a completar 14 anos, o paulistano Giuseppe Oristanio, segundo dos três filhos de um casal de imigrantes italianos radicados na zona sul de São Paulo, aceitou o convite de uma diretora de teatro, cliente da fábrica de botas em que trabalhava, para viver Pedrinho numa montagem do Sítio do Picapau Amarelo, clássico de Monteiro Lobato.

Meio século — e dezenas de projetos bem-sucedidos em tevê, cinema e teatro — depois, o ator festeja e colhe, com merecimento, os frutos de uma carreira longa e vitoriosa. Oristanio entrou na tevê em 1979, na Tupi, após várias montagens teatrais, como o Marinho da novela Como Salvar Meu Casamento.

Foi o início de uma trajetória que incluiu vários sucessos nos palcos, telonas e telinhas, entre eles as novelas Kananga do Japão e A História de Ana Raio e Zé Trovão, na Manchete, Fera Ferida e Irmãos Coragem (Globo) e 12 produções de peso na RecordTV, onde está desde 2007. Na casa, participou, entre outros projetos, de Chamas da Vida, A História de Ester, Ribeirão do Tempo, Fora de Controle, Máscaras, Dona Xepa e Plano Alto, além das superproduções Os Dez Mandamentos, Jesus e Gênesis.

Nesta conversa com o R7 ENTREVISTA, Oristanio comenta passagens saborosas de seu livro Sempre Existe um Porém  A Vida é Feita de História, recém-lançado na Bienal do Livro de São Paulo. Fala também sobre vida, família, literatura, profissão e o primeiro monólogo que fará em um palco de teatro, Pormenor de Ausência, sobre os últimos anos de vida do escritor Guimarães Rosa, com estreia prevista para 2 de outubro próximo, no Rio de Janeiro. Cenas clássicas de talento. Acompanhe:

Fiz faculdade de jornalismo depois dos 40 anos, por puro prazer de estudar. Tive experiências na área, inclusive um blog no R7, por dez anos, que me deu muito prazer. Mas a formação maior para lidar bem com as palavras é a leitura — e sou leitor voraz desde a primeira juventude. Lido bem com o ato de escrever

GIUSEPPE ORISTANIO

Seu texto é leve, fluente. Como desenvolveu a escrita?
Giuseppe Oristanio –
Fiz faculdade de jornalismo depois dos 40 anos, por puro prazer de estudar. Tive experiências na área, inclusive um blog no R7, por dez anos, que me deu muito prazer. Mas a formação maior para lidar bem com as palavras é a leitura — e sou leitor voraz desde a primeira juventude. Lido bem com o ato de escrever.

Por que decidiu escrever esse livro sobre a vida e a carreira?
Foi um presente, um bolinho de aniversário que resolvi dar a mim mesmo pelos 50 anos de profissão. Optei por uma escrita coloquial, sem pretensão de ser literário, como se estivesse conversando numa mesa de bar.

Seu pai, seu Antônio, o Totó, tem 93 anos. Sua mãe, Stella, não está mais entre nós. Você tem o irmão, Nóbile, cinco anos mais velho, e uma irmã, Teresa, cinco mais nova. Um dos pilares do livro é a relação amorosa e de gratidão que você tem com a família.
Sou de uma família de imigrantes italianos de origem humilde. Mas meus pais tiveram a grandeza de valorizar a cultura e a sabedoria de proporcionar aos filhos a educação escolar e de graduação que eles nunca tiveram e sentiram falta. Nos motivaram a sermos livres, mas ensinaram que liberdade não é ser maluquinho irresponsável. A vida exige grande dose de sacrifício e responsabilidade. Não era uma coisa falada, falada, falada o tempo todo, mas exemplificada no cotidiano.

Como decidiu ser ator?
Comecei a fazer teatro em 1972, aos 13 anos, em pleno regime militar, convidado pela diretora de uma companhia cliente da fábrica de botas em que eu trabalhava. Fiz o Pedrinho do Sítio do Picapau Amarelo numa montagem teatral em São Paulo. Tinha lido bem essa obra. Dominei o texto com tranquilidade. Era um momento do país em que se temia até mesmo sair de casa. A ideia de ser ator não passava pela minha cabeça. A profissão sequer era reconhecida, o que só veio a acontecer seis anos depois, 1978. Para você ter ideia, minha avó praticamente parou de falar comigo a partir do momento em que soube da minha decisão. Mal olhava para mim. Achava que ser ator era ser um perdido. Mas meus pais bancaram minha escolha com tranquilidade, sem achar que era algo menos especial do que as opções dos meus irmãos.

Essa compreensão impressiona. Não era comum a imigrantes italianos humildes da geração deles. Seu pai te acompanhou na primeira reunião com a diretora e disse que a decisão cabia a você.
Verdade. E ele tinha — e possui até hoje, aos 93 anos — essa sabedoria. Tentei acumular os ensaios para a peça com o trabalho e o estudo, à noite, na escola estadual. Mas ficou pesado e, cansado, comecei a faltar aulas. Disse a ele: ‘Está puxado ensaiar, trabalhar e estudar’. Resposta: ‘O que não pode é parar de estudar. Garanto o sustento em casa e a passagem do ônibus para a escola, mas não espere nada de mim para o resto’. Não era porque não queria. Não tinha — mesmo. Larguei o trabalho. Talvez por sorte, os resultados como ator apareceram com certa rapidez e voltei a ganhar algum dinheiro. Vivo da profissão há meio século. Às vezes bem, em outros momentos nem tanto, mas criei meus filhos com isso.

O ator em camarim da RecordTV, preparando-se para mais uma jornada de trabalho

O ator em camarim da RecordTV, preparando-se para mais uma jornada de trabalho

Reprodução/Record

Um dos trechos mais tocantes do livro é o seu comentário sobre a dedicatória feita por seu irmão em um dos exemplares da coleção de livros do escritor francês Júlio Verne, presente dele a você.

O texto da dedicatória é, de fato, muito bonito. Trata da importância da literatura, de maturidade, uma beleza. Meu irmão trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. Lembro-me dele chegando com a caixa de papelão recheada de cinco clássicos do Verne, comprados com dinheiro dele, que ajudaram a mudar minha visão de vida. Ele fez aquela dedicatória linda com apenas 17 anos. Sou colado nesses exemplares até hoje. Estão aqui, na estante de minha casa no Rio (Oristanio aponta para prateleiras brancas recheadas de livros, às suas costas). Digo no livro que tinha o sentimento de que nada daria errado enquanto Nóbile estivesse perto. Pois é: esses livros me passam segurança emocional. Acredita nisso?

Sim. Conte a passagem em que sua mãe lhe dá uma lição de vida em sua primeira visita a ela após sair de casa para dividir apartamento com um amigo.
Essa passagem é espetacular, quase filosófica. Aos 21 aos, a grana melhorou um pouquinho e resolvi dividir um apartamento com um amigo no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Dias após a  mudança, visitei a casa dos meus pais com um sacão de roupa suja nas mãos. Coloquei o saco num canto, abracei e beijei minha mãe. Ela me tratou com o carinho de sempre: fez comida, insistiu para eu me alimentar bem, quis saber das novidades, conversou, enfim, todo o carinho do mundo. Quando me levantei para ir embora, ela mandou, com leve ironia: ‘Não vá se esquecer daquele saco, hem?’.

E aí?
Ela estava ligada. Bom, eu, meio em dúvida, disse: ‘Vou deixar. São roupas para a senhora lavar para mim. Voltarei em alguns dias para pegar’.

Ela?
Bom, aí veio a lição de vida. Ela chegou perto de mim e disse bem baixinho: ‘Filho, você não mora mais aqui. A partir de agora, precisará resolver sozinho várias coisas de sua vida, entre elas arrumar como lavar a própria roupa. Não é por falta de carinho ou de vontade de fazer coisas para você, longe disso. Mas sim porque isso será importante para sua vida a partir de agora. Mesmo porque você não terá condição de trazer e pegar roupa, em São Paulo, a cada sete, dez ou quinze dias’.

Certíssima a dona Stella. Mas ela foi forte. Mesmo com razão, é raro ver uma mãe tomar esse tipo de atitude. Ainda mais uma mãe italiana.
(Risos) De fato não existiu qualquer tom de raiva, cobrança ou reclamação. Ao contrário: houve carinho e responsabilidade. Ela me fez entender, jovem e com alguns dias fora da casa dela, que morar fora da casa dos pais não é apenas dormir fora da casa dos pais. Morar sozinho não é apenas dormir em outro lugar, mas, antes de tudo, aprender a resolver as próprias coisas. Mesmo porque, como ela destacou, seria inviável levar e pegar roupinha constantemente em casa com a correria, o trânsito e as distâncias de São Paulo.

Bela lição. E a história com a atriz Beatriz Segall?
Essa também é ótima. Com 15 anos, eu fazia teatro no meu bairro, na zona sul de São Paulo. Um dia recebemos a visita de dois monstros do teatro brasileiro que, anos depois, para minha honra, se tornariam meus amigos: Beatriz Segall e Sérgio Mamberti. Após a apresentação, Beatriz me chamou em um canto e disse: ‘Menino, talvez você seja o único dessa turma a ter algum talento para virar ator. Mas é muito exagerado. Segure um pouco a onda’. E me explicou pontos técnicos, overact, ou seja, atuar exageradamente, entre outras coisas. Nos levou para uma visita ao Theatro São Pedro, na Barra Funda, em São Paulo, uma das joias das artes cênicas brasileiras. Foi um sonho, uma maravilha.

Beatriz Segall era a elegância em um corpo humano. Aquela coisa culta, nobre, chique até mandar parar. Mulher do dramaturgo e poeta Maurício Segall, conhecedora profunda de história da arte, tema das aulas que dava para a gente em sua casa, na Vila Mariana, atrás do Museu Lasar Segall, pai do seu marido. Aquela nobreza me intimidava sempre que tinha vontade de lembrar a ela que tinha me orientado na adolescência

GIUSEPPE ORISTANIO

E aí?
Anos depois, já ator, fui trabalhar com Beatriz em um projeto na televisão, mas não tive coragem de lembrar a história com ela. Um tempo mais à frente, eu com 30 anos, fizemos uma peça de teatro juntos e eu continuava sem coragem. Beatriz era a elegância em um corpo humano. Aquela coisa culta, nobre, chique até mandar parar, mulher do dramaturgo e poeta Maurício Segall, conhecedora profunda de história da arte, tema de aulas para a gente em sua casa, na Vila Mariana, atrás do Museu Lasar Segall, pai do seu marido... Enfim, toda aquela nobreza me intimidava quando tinha vontade de relembrar a história.

Na pele do caçador Gomer, na superprodução 'Gênesis', da RecordTV

Na pele do caçador Gomer, na superprodução 'Gênesis', da RecordTV

Blad Meneghel/RecordTV

E o que aconteceu, afinal?

E não é que, numa dessas reuniões, ela, para exemplificar algo, lembrou-se exatamente da visita ao colégio? Simplesmente começou a relatar o encontro. O local, o período, e o que ela disse ‘a um garoto lá que tinha talento, mas era exagerado, overact, e tal’... A perna começou a tremer, até que eu não aguentei e falei alto: ‘Beatriz, era eu! Aquele garoto era eu!’

Como diria o rei Roberto Carlos, esse cara sou eu.
Exatamente (risos). De início, ela não acreditou. Mas descrevi o ambiente, o que aconteceu, o que ela disse para mim, a companhia do Sérgio, a visita depois ao Theatro São Pedro... Aí ela se deu conta de que eu não poderia conhecer tantos detalhes, inclusive dos conselhos dela, se não fosse eu mesmo aquele moleque. Ficou emocionada — e eu também, claro. Tinha por ela o carinho que se dedica a uma mãe. Fiquei muito mal e triste com a morte dela, em 2018, e do Sérgio, no ano passado.

Sou rigorosa e obsessivamente pontual. É meu transtorno obsessivo-compulsivo, meu TOC (risos). Prefiro chegar adiantado meia ou até uma hora do que atrasar 30 segundos. Isso me ajuda a trabalhar em grupo. Mas assim que acaba vou embora no ato. Pico a mula

GIUSEPPE ORISTANIO

Você não me parece um ator chegado a estrelismos.
Verdade. As artes cênicas envolvem arte, prazer, conhecimento e, muitas vezes, reconhecimento carinhoso das pessoas. Você se torna uma pessoa pública. Tudo isso é verdade. Mas, para mim, ser ator é trabalho. Uma profissão como qualquer outra — e todas merecem o mesmo respeito. Ataques de estrelismo são uma coisa vulgar. Não fazem o mais remoto sentido. É preciso ser gentil e educado com todo mundo, dentro e fora da profissão. E se do outro lado estiver alguém mais simples, com recursos menores ou menos conhecido do que você, aí a educação e a gentileza precisam ser ainda maiores. Uma postura agressiva, ríspida, deseducada com quem poderá se sentir constrangido a reagir da mesma forma é, no mínimo, covardia. Se estou no camarim, o assistente de produção entra e diz ‘por favor, vamos gravar, chegou a hora’, eu me levanto naquele segundo. Chegou a hora e, afinal de contas, estou lá para trabalhar. Simples como isso. Ponto. Cada minuto de atraso representa prejuízo numa engrenagem cara e muito maior do que nós, individualmente.

Por falar em tempo, você diz no livro que faz questão de ser pontual. Verdade?
Sou rigorosa e obsessivamente pontual. Você deve ter percebido na nossa preparação para a entrevista. É meu transtorno obsessivo-compulsivo, meu TOC (risos). Prefiro chegar adiantado meia ou até uma hora do que atrasar 30 segundos. Isso me ajuda a trabalhar em grupo.

Livro: histórias de vida e profissão contadas com humor e fluidez

Livro: histórias de vida e profissão contadas com humor e fluidez

DIVULGAÇÃO/FILOS EDITORA

Mas quando acaba você vai embora no ato.

Exatamente. Pico a mula. No teatro é a mesma coisa. Às vezes acaba a peça, teatro lotado, e eu chego no estacionamento antes do público (risos). Em algumas ocasiões temo que isso produza erros de interpretação com alguém que, por exemplo, deseja conversar comigo após o espetáculo, mas é meu jeito. O que me agrada na profissão são os momentos de plenitude no palco e no estúdio. Fora deles, vivo a vida pessoal. Volto para casa para manter a dose de sanidade necessária a enlouquecer nos momentos certos e da maneira adequada nessa função maluca.

Você faz parte do time da RecordTV há 15 anos. Está feliz?
Muito. Me receberam com enorme carinho e boa vontade. Fiz muitos, mas muitos amigos por lá. Pessoas com diferentes funções, níveis culturais e hierárquicos distintos. Sinto-me verdadeiramente querido. A casa dá oportunidade para o crescimento. Nesse tempo abracei vários profissionais bacanas, gentis, que chegaram em cargos menores e evoluíram na emissora, por merecimento. Isso é incrível, muito bacana.

Vou estrear, no dia 2 de setembro de 2022, na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio, meu primeiro monólogo. Estarei sozinho no palco no texto Pormenor de Ausência, de Lívia Baião, que retrata os últimos anos de vida de Guimarães Rosa, um dos grandes escritores de todos os tempos. Vamos fazer no Rio e ver depois como levar para outras cidades

GIUSEPPE ORISTANIO

Está com algum projeto futuro além do lançamento do livro?
Tenho outras coisas, de ficção, que venho escrevendo e pretendo lançar quando ficarem prontas. Comecei na profissão em setembro de 1972. Vou estrear, no dia 2 de setembro de 2022, na Casa de Cultura Laura Alvim, no início da Praia de Ipanema, no Rio, meu primeiro monólogo. Estarei sozinho no palco para apresentar o texto Pormenor de Ausência, de Lívia Baião, que retrata os últimos anos de vida de Guimarães Rosa, um dos grandes escritores de todos os tempos. Vamos fazer no Rio e ver depois como levar para outras cidades.

A vida pessoal de Rosa guarda boas histórias.
Isso. Um exemplo. Mesmo depois de consagrado, ele era doido para entrar na Academia Brasileira de Letras. Obcecado. Até que conseguiu — mas cismou que não poderia tomar posse. Dizia: ‘Se tomar posse, morro’. Adiou a posse por longos quatro anos — e morreu três dias depois dela. O texto da peça diz por ele: ‘As rosas que enfeitaram minha posse nem sequer tinham começado a murchar e eu mudei-me da cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras para a urna três do Cemitério São João Batista (no Rio de Janeiro)’

Promessa de fortes emoções.
Tomara que o público goste.

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