Entrevista Jorge Caldeira: "O brasileiro comum foi o construtor do país e, hoje, é o grande ator da sustentabilidade" 

Jorge Caldeira: "O brasileiro comum foi o construtor do país e, hoje, é o grande ator da sustentabilidade" 

Jornalista, escritor e um dos novos imortais da Academia Brasileira de Letras dá detalhes de seu novo livro, sobre questões ligadas à natureza, e revela curiosidades do país, da Colônia aos dias atuais

  • Entrevista | Eduardo Marini, do R7

Resumindo a Notícia
  • Jorge Caldeira escreveu mais de 15 livros sobre História do Brasil.

  • Seu maior best-seller é ‘Mauá — Empresário do Império’.

  • Escritor ocupa na ABL cadeira que era da escritora Lygia Fagundes Telles.

  • Um de seus livros mais conhecidos é ‘História da Riqueza no Brasil’.

Caldeira traz em novo livro caminhos para o país na era da sustentabilidade
Caldeira traz em novo livro caminhos para o país na era da sustentabilidade DIVULGAÇÃO/LUIZA SIGULEM

O jornalista, pesquisador, escritor, sociólogo e cientista político Jorge Caldeira, 64 anos, é responsável por uma série de esclarecimentos importantes feitos na história do Brasil desde o período colonial.

Mestre em sociologia e doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), Caldeira, chamado carinhosamente pelos amigos de Cafu, escreveu mais de 15 livros sobre o assunto, entre eles Mauá, Empresário do Império, História da Riqueza no Brasil e 101 Brasileiros que Fizeram História.

Todos frutos de pesquisas constantes e minuciosas que trazem, como objetivo, contribuir para a abertura de caminhos a partir do entendimento da trajetória econômica, política e social do país.

Seu trabalho mais recente é Brasil: Paraíso Restaurável (Sextante, 352 páginas, R$ 69,90 e R$ 39,99 o e-book), escrito em parceria com a economista e cientista política Julia Sekula e a jornalista e publicitária Luana Schabib.

No livro, Caldeira e as parceiras apontam caminhos para que o Brasil amplie seu potencial de oportunidades e ganhos na era da sustentabilidade que toma conta do país e do mundo.

Nesta conversa com o R7 ENTREVISTA, ele revela detalhes do livro, apresenta curiosidades saborosas sobre realidade brasileira da Colônia à Primeira República e faz comentários das funções da Academia Brasileira de Letras, a ABL.

Caldeira é um dos mais novos imortais da ABL. Ocupa a cadeira deixada pela escritora Lygia Fagundes Telles, morta em abril de 2022, aos 98 anos, em São Paulo. Papo delicioso sobre história — com quem sabe tudo sobre quem fez e faz história. Acompanhe:

O país é gigante pela própria natureza ao olhar do mundo e até no hino. Mas, até bem pouco tempo, isso não queria dizer que natureza rica fosse um caminho econômico. Ela era vista apenas como uma paisagem bonita para o turismo. A beleza é fato, mas não deve ser considerada como único fator de atração de benefícios. A humanidade tomou consciência dos efeitos negativos do aquecimento global e busca soluções. O problema é milenar. Começa quando o homem descobre o fogo e passa a utilizá-lo para produzir calor, energia, queima, combustão e, claro, emissão de gás

JORGE CALDEIRA


O tema de seu livro mais recente, Brasil: Paraíso Restaurável, escrito em parceria com Julia Sekula e Luana Schabib, é a sustentabilidade. Vocês chamam atenção para a necessidade de tratar a natureza de forma compatível com a cultura brasileira. Sustentabilidade não era associada a desenvolvimento da economia, geração de riqueza e oportunidades de futuro. Dê um pouco mais de detalhes.
Jorge Caldeira — Você toca no ponto na razão de ser deste livro: a necessidade de encontrarmos conceito e trajetória de sustentabilidade compatíveis com nossa cultura. O país é gigante pela própria natureza ao olhar do mundo e até no hino. Mas, até bem pouco tempo, isso não queria dizer que natureza rica fosse um caminho econômico. Ela era vista apenas como uma paisagem bonita, a ser observada como turismo. A beleza é um fato, mas não deve ser considerada como o único fator de atração de benefícios. À medida que a humanidade tomou consciência dos efeitos negativos do aquecimento global, o mundo passou a buscar soluções. O problema é milenar. Começa a ser construído quando o homem descobre o fogo e passa a utilizá-lo para produzir calor, energia, queima, combustão e, claro, emissão de gás. Chegou a hora de combater o problema. Descobrir modelos de produção com pouca ou nenhuma emissão.

Os investimentos na causa são imensos em todo o mundo.
Exatamente. Hoje se investe algo como 2 trilhões de dólares por ano, cerca R$ 10 trilhões, no mundo, em busca de soluções de sustentabilidade para combater o aquecimento global, diminuir o consumo de combustíveis fósseis e fixar carbono plantando árvores. É mais do que o Produto Interno Bruto [PIB] do Brasil, ou seja, tudo o que nós todos produzimos em um ano. São os caminhos para lidar com a situação.

Temos 1,6 milhão de brasileiros que já colocaram placa solar no telhado. Isso não é derivado da vontade do Estado, mas da capacidade empreendedora de brasileiros que identificam uma possibilidade nova, aderem a ela e começam a construir um futuro diferente

JORGE CALDEIRA

Por que o título do novo livro, Brasil: Paraíso Restaurável?
Porque o paraíso, o Brasil, sempre foi restaurável, e agora temos uma grande oportunidade. Hoje, a maior iniciativa de adaptação do Brasil a este mundo novo é a economia de carbono neutro feita pelo pequeno empreendedor. Temos 1,6 milhão de brasileiros que já colocaram placa solar no telhado. Isso não é derivado da vontade do Estado, mas da capacidade empreendedora de brasileiros que identificam uma possibilidade nova, aderem a ela e começam a construir um futuro diferente.

Da energia que consumimos, 60,29% vêm das hidrelétricas, ou seja, da água, 11,4% são eólica, vêm do vento, 8,8% são biomassa e 2,6% são solar. Total: 83,09% de energia limpa e/ou renovável. Apenas 16% saem da queima de petróleo e outros combustíveis fósseis e 1,1 de usinas nucleares. Duas décadas atrás não havia energia eólica, solar ou de biomassa no país. Hoje essas três fontes representam mais de 20% da produção de energia no Brasil. Equivalem a quatro usinas de Itaipu

JORGE CALDEIRA


O que mais é preciso fazer?
Precisamos combinar bons investimentos com uso correto da natureza. Pelos dados de 2022, 60,29% da energia que consumimos vem das hidrelétricas, ou seja, da água, 11,4% são eólica, vêm do vento, 8,8% são biomassa e 2,6% são solar. Total: 83,09% de energia limpa e/ou renovável. Apenas 16% saem da queima de petróleo e outros combustíveis fósseis e 1,1 de usinas nucleares. Duas décadas atrás não havia energia eólica, solar ou de biomassa no país. Hoje essas três fontes representam mais de 20% da produção de energia no Brasil. Equivalem a quatro usinas de Itaipu. Como se vê, alguns pontos parecem estar no caminho. O novo livro é um guia para a gente entender o lugar do Brasil nesse novo caminho tomado pela humanidade.

Suas pesquisas e os mais 15 livros escritos revelam questões históricas importantes e curiosas, sobretudo do período brasileiro entre a Colônia e a Primeira República. Uma delas foi o contraste entre um interior produtivo, otimista, e o frequente pessimismo gerado pelas crises no Rio de Janeiro, em Salvador e em outras capitais. Um interior que não era exatamente administrado e dominado, como marionete, pela elite interna ou por Lisboa.
Um dos meus livros é História do Brasil Com Empreendedores, lançado em 2009. Ele só foi possível graças aos dados históricos trazidos à tona pela tecnologia a partir dos anos 1970. Não só das capitais, mas de todo o país, permitindo enxergar aspectos da realidade que a quase totalidade da documentação antiga não trazia. Era complicado tabular e relacionar, por exemplo, números sobre batismo, investimentos e produção, questões judiciais, enfim, os mais diversos censos e aspectos fundamentais da Colônia, para chegar ao retrato estatístico do país.

E qual retrato encontrou?
O de uma nação formada basicamente pelo pequeno empreendedor, firme no interior, com um monte de categorias e modos de pensar não visíveis antes da análise desses dados. Um exemplo decisivo: como muito poucos sabiam ler e escrever, a comunicação oficial, dos governos, era praticamente a única. Essa comunicação estava mais atenta aos grandes comerciantes, assuntos de posse, direito de funcionários… Aliás, como sempre [risos]. Outro: ao contrário do que se imaginava, 6 de cada 7 partes do PIB brasileiro, no fim dos anos 1700 para a chegada dos 1800, vinham de pequenos proprietários, da produção familiar, em sítios, ou seja, de coisa pequena, e não dos grandes que dominavam a comunicação oficial. Isso não era retratado. O que se tinha era uma imagem do país mais parecida com a dos universos coloniais dos Estados Unidos e da Europa.

Imaginem, por exemplo, que, em 1822, o ano da Independência, apenas um por cento – isso, um por cento – da população do país era alfabetizada. As pessoas levavam seis meses para ir a pé do Rio de Janeiro ao Mato Grosso, que tinha apenas 40 mil habitantes àquela altura. Do Amazonas ao Rio, era mais fácil tomar diretamente o rumo de Lisboa do que enfrentar, com as embarcações da época, os ventos e as tempestades do litoral nordestino e do Atlântico Sul. Dá para imaginar o trabalho necessário para manter a unidade nacional nessas condições de logística?

JORGE CALDEIRA

Você revela dimensões e comparações curiosas sobre as dificuldades logísticas naquele período. Viagens que duravam uma eternidade, o que gerava dificuldade adicional para a circulação de informações e conhecimento.
Tudo longe demais, em todos os aspectos. Imaginem, por exemplo, que, em 1822, o ano da Independência, apenas um por cento – isso, um por cento – da população do país era alfabetizada. As pessoas levavam seis meses para ir a pé do Rio de Janeiro ao Mato Grosso, que tinha apenas 40 mil habitantes àquela altura. Do Amazonas ao Rio, era mais fácil tomar diretamente o rumo de Lisboa do que enfrentar, com as embarcações da época, os ventos e as tempestades do litoral nordestino e do Atlântico Sul. Dá para imaginar o trabalho necessário para manter a unidade nacional nessas condições de logística?

Seu livro Mauá – Empresário do Império, sobre a vida do Visconde de Mauá [1813-1889], o empresário mais rico do Brasil no período imperial, é seu maior best-seller. Mauá foi mesmo o introdutor de algo que pode ser chamado de capitalismo no país?
Ele foi o primeiro a provar que as possibilidades do capitalismo no Brasil existiam. Foi o homem mais rico do país entre 1830 e 1889, ano de sua morte. Era abolicionista e jamais utilizou trabalho escravo em seus negócios. Sabia fazer funcionar uma economia nos moldes capitalistas em um ambiente institucional e legal totalmente voltado à escravidão.

Um modelo realmente difícil de enfrentar.
Em toda a América Latina. O Haiti fez a abolição antes dos vizinhos, mas não conseguiu moldar a economia. Nos Estados Unidos, ela só veio após uma guerra de cinco anos que matou 10% da população, ou seja, um de cada dez habitantes do país no período.

O escravo era também um ativo, um bem, uma posse, com certificado de propriedade e tudo, e isso provocou mais resistência à abolição, não é mesmo?
Perfeito — e esse era um grande problema. Com a abolição, eram extintos também os títulos de propriedade dos senhores sobre os escravos, que não só eram explorados no trabalho, mas também valiam dinheiro. Os títulos de propriedade dos escravos eram dados por seus donos como garantias em bancos e transações. Eram a garantia básica da economia. O sujeito ia ao banco pegar um empréstimo e dava como garantia o título de propriedade de um ou mais escravos, a depender do valor do pedido. Como um cidadão ou empresário oferece hoje um carro, uma moto ou um imóvel. Com a abolição, esses títulos evaporaram. Passaram a não valer mais nada. Aconteceu aqui, no Haiti e nos Estados Unidos. O fazendeiro com títulos de propriedade de escravos perdeu as grandes garantias que tinha da noite para o dia. No banco, passou a ouvir algo do tipo: “Não vou emprestar dinheiro porque o senhor não possui mais garantia”. Por isso, várias fazendas faliram e só sobraram aquelas sedes, quase todas decadentes como a do filme ...E o Vento Levou. Mas o pequeno produtor que conseguia tocar suas produções fora dos moldes escravocratas, a exemplo de Mauá, seguiram e estabeleceram uma economia nos moldes capitalistas. No Brasil mais tarde do que no restante das Américas.

Além do Visconde de Mauá, quais são os brasileiros que formam o eixo fundamental da evolução do país?
A capa do livro 101 Brasileiros que Fizeram História traz uma moça, Sebastiana, em um desenho feito na década de 1820 no interior do Mato Grosso. É a imagem-síntese do cidadão brasileiro comum, efetivamente o mais importante construtor da identidade e do próprio país. As figuras importantes que estão no livro — e há muitas, uma seleção delas — foram as que entenderam, ao longo do tempo, quem era e ainda é o brasileiro comum, coisa que não é muito fácil. Da política às artes, passando pela economia, pela indústria e pelo ensino, estão todas no livro.

Monteiro Lobato perdeu a eleição na ABL porque queria que o brasileiro escrevesse como falava. Não foi compreendido na época. Hoje, Fernanda Montenegro e Gilberto Gil — que escrevem muito bem, por sinal — enriquecem e ampliam os horizontes da Academia Brasileira de Letras justamente neste caminho da relação entre as linguagens falada e escrita. É uma grande evolução

JORGE CALDEIRA


Mudando de assunto: você deve ter se sentido honrado em assumir, como um dos mais novos imortais da Academia Brasileira de Letras, a ABL, a cadeira antes ocupada pela escritora Lygia Fagundes Telles.
Muito. Demais. Pouca gente sabe, mas a função maior da academia é regular a relação entre a linguagem falada e a escrita. Essa função é entregue a 40 pessoas, eleitas para debater e regular essas condições. Não é fácil juntar tanta gente qualificada, no Brasil, para discutir a evolução de um tema, seja ele qual for. Passo minha vida escrevendo. Como jornalista e escritor, sou usuário da língua, então, estar nesse grupo é realmente uma honra imensa. Procuro escrever e ser entendido por todos. Se você olhar bem, a ABL tem essa característica de aprimoramento das relações da língua desde Machado de Assis, que desenvolveu características de sua escrita escrevendo a vida inteira para jornais e publicações.

O livro: preservação adequada à cultura do país

O livro: preservação adequada à cultura do país

DIVULGAÇÃO/EDITORA SEXTANTE

Como vê a chegada à ABL de um músico como Gilberto Gil e de uma atriz do quilate de Fernanda Montenegro?
De forma muito positiva. Monteiro Lobato perdeu a eleição na ABL porque queria que o brasileiro escrevesse como falava, e na época não foi compreendido. Hoje, Fernanda Montenegro e Gilberto Gil, que escrevem muito bem, enriquecem e ampliam os horizontes desse caminho na ABL. É uma grande evolução.

Sua filha Violeta Caldeira é outra pesquisadora importante na área de ciências humanas. Vocês costumam debater?
Violeta tem 41 anos. É formada em ciência política e leciona direito constitucional na universidade. Sempre teve ideias muito próprias, que não coincidem com as do pai em muitos aspectos. É uma debatedora incansável. Fui aprendendo alguns pontos com ela — quase nunca concordando ao primeiro contato, devo confessar. Ela tem uma visão do país muito própria da geração pós-1990, de um país que vivia certa estabilidade democrática. É professora desde os 27 anos. Fez mestrado sobre a judicialização da política no Brasil, mostrando que o número de questões políticas que passariam a ser assumidas e resolvidas pelo Judiciário seria cada vez maior no Brasil e no mundo.

Não deu outra.
Pois é. A tendência é universal, e um dos pontos altos do cenário político brasileiro na atualidade. Mas, há 15 anos, não era nada visível. Eu mesmo fui o primeiro a dizer: “Minha filha, você está exagerando”. Só que não: ela estava percebendo tudo isso antecipadamente.

Muito obrigado.
O agradecimento é todo meu.

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