Entrevista 'Aprender a usar o dinheiro é uma libertação': Nath Finanças ensina a sair do vermelho em 2024

'Aprender a usar o dinheiro é uma libertação': Nath Finanças ensina a sair do vermelho em 2024

Educadora financeira explica como controlar gastos, renegociar dívidas e o que fazer quando tiver alguma sobra no orçamento

  • Entrevista | Pedro Contrera Marques, do R7

Nath Finanças vendeu cartão de crédito antes de ensinar educação financeira

Nath Finanças vendeu cartão de crédito antes de ensinar educação financeira

Divulgação

“Eu ensinava as pessoas a se endividarem”, lembra a influencer e educadora financeira Nathália Rodrigues, mais conhecida como Nath Finanças. Como muitas pessoas nascidas em família de baixa renda, Nathália precisava trabalhar para ajudar nas despesas de casa. E, em um de seus empregos, ela chegou a vender cartão de crédito em uma loja de departamentos. “Me senti mal e acabei saindo”, afirma a influenciadora sobre a experiência.

Hoje, Nath Finanças tem muito mais motivos para se orgulhar. Neste ano, ela lançou a nova versão de seu site de educação financeira, o Nath Play 2.0, que, além de dicas de organização das contas, traz conteúdos sobre temas como aposentadoria, investimentos e empreendedorismo.

Em 2023 ela também lançou dois livros de educação financeira para crianças em parceria com ninguém menos que o cartunista Ziraldo — é o próprio Menino Maluquinho quem dá as dicas aos pequenos em O Plano Perfeito e O Mistério dos 3R’S. A seguir, Nathália Rodrigues conta como virou Nath Finanças e dá dicas a quem quer sair do vermelho em 2024.

Eu pensava: ‘Nossa, eu estou oferecendo cartão, e essa pessoa vai se endividar’

Nath Finanças

Como era a vida financeira da Nathália Rodrigues antes da Nath Finanças?
Eu, Nathália Rodrigues, antes de ser a Nath Finanças, eu não tinha educação financeira, nunca tive educação financeira em casa. Eu tive economia doméstica, como economizar na luz, na água, que acho que é um clássico que todo mundo aprende com a família, principalmente uma família de baixa renda. Mas eu nunca tive esse acesso a como me organizar financeiramente, o planejamento financeiro, entender os comportamentos, emoções que afetam diretamente as finanças. E foi por causa desse incômodo, o de não saber e ver nas redes sociais só pessoas que tinham muito dinheiro falando [sobre educação financeira], que eu criei a Nath Finanças em 2019. Vai fazer cinco anos em janeiro.

Quando você começou a se interessar por educação financeira?
Foi um momento no qual eu estava pesquisando na internet por conta do meu professor de matemática financeira, que me ensinou da melhor maneira possível como me organizar financeiramente, tinha matéria específica na faculdade. E aí ele falou uma coisa que me marcou muito: antes de entender as finanças de um negócio, você precisa também ter as suas finanças pessoais organizadas, para você, inclusive, manter o seu negócio. Eu me formei em administração, então você precisa, de fato, entender como funcionam as suas finanças pessoais. E foi a partir dali que ele ensinou a educação financeira, começou a ensinar para a gente como se organizar, ensinando sobre juros e tudo o mais, e eu comecei a estudar sobre o assunto e me especializar.

Como surgiu a ideia da Nath Finanças?
Quando vendia cartão de crédito de loja, eu estava [começando] na faculdade. Depois que o meu professor ensinou sobre Serasa, SPC, sobre os juros, eu me senti muito mal [por vender o cartão da loja]. Eu pensava: "Nossa, eu estou oferecendo cartão, e essa pessoa vai se endividar".

Mas você continuou oferecendo cartão de crédito?
Chegou um momento que, quando alguém falava que ia fazer o cartão de crédito, eu perguntava para essa pessoa quantos cartões ela tinha. Se ela dissesse que tinha mais de dois, eu já falava: Tem certeza? Eu não estava nem batendo a meta! Teve uma hora que o gerente disse: "Natália, o que está acontecendo? O vendedor convence a cliente e, na hora que ela vai fechar o contrato com você, ela desiste". Aí eu disse: "Acho que ela parou para pensar que ela não precisa de mais um cartão". Mesmo assim, o gerente, o Bruno, me adorou. A gente se fala até hoje.

Você não deve ter ficado muito tempo nesse emprego...
Eu me senti mal e acabei saindo. Antes mesmo de sair, eu já estava mostrando para as pessoas [que compravam o cartão de crédito] o que elas tinham que fazer para descobrir se estavam com o nome sujo e como quitar dívidas.

Saí de 30 mil seguidores para 300 mil em um mês. Foi muito doido, o alcance da internet é muito rápido

E daí você começou a Nath Finanças? Como foi esse início?
Isso tudo aconteceu em 2019. Depois eu fui trabalhar na área financeira e comecei o projeto. No início se chamava Finanças com a Nath, porque eu sou péssima para escolher nomes. Era o nome do canal no YouTube e no Instagram. Mas aí, quando fui criar a conta no Twitter, não dava [para colocar Finanças com a Nath], porque o número de caracteres era muito grande. Aí pensei, vou colocar Nath Finanças, é mais rápido. Só que as pessoas começaram a me chamar desse jeito e tive que mudar tudo, até troquei de CNPJ, senão ia dar confusão.

Quando você começou a ficar conhecida como Nath Finanças?
Então, o canal começou a viralizar em janeiro de 2020, por causa de uma matéria que bombou e apareceu em vários sites. Ali eu saí de 30 mil seguidores para 300 mil em um mês, no Twitter (que foi renomeado para X neste ano). E foi muito doido, o alcance da internet é muito rápido. Logo depois viralizou um meme em que um menino chorava porque tinha gastado demais. Mas continuei trabalhando, né? Na época eu ainda trabalhava longe de casa, não ganhava um salário mínimo, pegava trem, ônibus. Eu pude parar mesmo de trabalhar na área financeira e ficar só com a Nath Finanças lá para março, abril de 2020, quando veio a pandemia e fechou tudo.

De lá para cá, o que mudou? Qual é o problema mais comum quando se fala de educação financeira?
A gente tem 70% da população brasileira endividada. Esses dados são das empresas de proteção ao crédito. Até por isso, as pessoas me procuram principalmente para saber como fazer para quitar dívidas, se organizar financeiramente, aprender a investir. Esses são os três principais tópicos. São esses assuntos que, querendo ou não, afetam diretamente todos os dias a vida dos brasileiros. Mas o mais importante é ensinar que, para conquistar alguma coisa, você precisa de dinheiro. Aprender a usar o dinheiro é uma forma de libertação.

A falta de planejamento financeiro prejudica o seu estado mental

Seu canal é voltado para a população de baixa renda. Quais são as principais dúvidas da população mais carente? São iguais às da classe média?
Não, são completamente diferentes. A dúvida do público de baixa renda é saber como fazer para juntar uma grana, porque mal dá para pagar as contas com um salário mínimo. É uma dúvida muito específica no sentido de quitar dívidas, o financiamento da casa, o financiamento de carro, como negociar uma dívida que já tem mais de cinco anos... É muito mais sobre como se organizar e criar esse pensamento de organização financeira. Quando a gente fala para uma pessoa de classe média, ela tem dívidas, tem boletos, só que ela perdeu tudo porque ela se desorganizou. Ela só tem dívidas, às vezes, porque se deslumbrou e acabou se prejudicando.

Qual a principal causa do endividamento?
A gente escuta muito que uma pessoa gastou demais e se endividou demais porque ela quis comprar um telefone caro ou alguma coisa de luxo. Não é isso. Saiu um dado de que as pessoas ficaram endividadas não porque elas quiseram, mas porque teve uma pandemia que durou mais de dois anos. A gente tem que lembrar que as pessoas perderam o emprego, tiveram redução salarial e também perderam entes queridos que antes sustentavam a casa. Essa pessoa endividada, entre ela pegar o único dinheiro que tem para pagar a dívida e comer, ela vai preferir comer. Ela vai preferir pagar as contas mais básicas possíveis, que é a da luz, que é a da água e o supermercado.

Dependendo da situação, quitar uma dívida vai demorar anos

E o cartão de crédito?
Uma pessoa que ganha um salário mínimo e precisa comprar uma geladeira de R$ 1.500, que é a geladeira nova mais barata, vai precisar parcelar em 12 vezes essa compra. Mas, se essa pessoa perder o emprego no meio desse parcelamento, ela não vai conseguir manter aquele compromisso. A conta do cartão de crédito, que é aquela em que a maioria das pessoas fica endividada, ela vai deixar para depois, não vai ser prioridade, porque os juros são tão altos que ela não consegue nem pagar.

Além do endividamento, quais os problemas de não ter um planejamento financeiro?
A falta de planejamento pega diretamente nas nossas dores. Você receber uma pressão psicológica de ligações de cobrança atrás de ligações. Ela prejudica o seu estado mental, a forma como você vai trabalhar, a forma como você vai lidar com o seu dia a dia. Tem muita gente, inclusive na própria psicologia financeira, que fala que grande parte do desespero, da angústia, é pela falta do dinheiro. É por também ter esse endividamento, que afeta diretamente o psicológico da vida dessas pessoas.

Como a educação financeira pode ajudar
A educação financeira não vem como uma salvadora da pátria para resolver todos os problemas e as mazelas da sociedade. Mas ela vem para ajudar você a entender onde está o seu problema. E como buscar essa solução aos poucos. Não é de uma hora para outra. Não é em uma semana. Não é em um mês. Demora meses. Ou, dependendo da situação, até anos para você conseguir quitar uma dívida. É aos poucos que [a educação financeira] acaba entrando como um meio de libertação.

Uma promessa que muita gente faz no começo do ano é sair do vermelho e quitar dívidas. Por onde começar?
O primeiro passo é entender seu comportamento financeiro. Você entender, de fato, o que quer fazer com seu dinheiro e qual é seu objetivo. Porque tem muita gente que acaba querendo fazer muitas coisas em 2024, mas não coloca isso no papel. Você precisa entender também, além das suas metas financeiras, o que gostaria de realizar em 2024. Você precisa entender o seu comportamento financeiro ao longo desses anos. O que fez você gastar demais? O que fez você também tomar certas atitudes impulsivas?

E depois?
O segundo passo é começar a organização financeira, mesmo, que é anotando seus gastos. E aí eu recomendo que você separe os gastos em cinco categorias. Primeiro, em gastos fixos, que são aqueles que acontecem todos os meses. E que não mudam de valor. Os gastos variáveis, que são aqueles que acontecem conforme o seu consumo. Exemplos dos gastos variáveis são a conta de luz e a de água. Que são gastos que dependem do seu consumo. Temos também os gastos extras, que acontecem quando a gente não espera. Que é um hospital, um médico.

Temos ainda o lazer. É esse o ponto em que um monte de gente fala "acho que eu fui assaltada no Uber, acho que fui assaltada e clonaram meu cartão". E, no final, foi ela mesma quem se clonou e acabou gastando demais. Nesses pontos a gente precisa tomar a decisão de cortar o gasto. E, por último, são as metas financeiras. Às vezes a gente acaba pensando em ajudar todo mundo na nossa vida: pai, amigo, família. E, no final, a gente não bota nossas metas financeiras pessoais para serem realizadas.

E as dívidas, como ficam?
Isso é depois que a pessoa fizer a organização financeira. E, para quitar dívidas, é algo bem simples. Você vai listar todas as suas dívidas e vai colocar o valor das parcelas quando você começou a pagar e ver qual é o valor da parcela que você está pagando hoje. Com isso, você vê a porcentagem dos juros que é cobrada ao mês. E aí você vai priorizar as dívidas que têm juros maiores.

As pessoas acabam sendo muito cruéis com elas mesmas, porque tem essa pressão financeira

Que dica você pode dar na hora de negociar?
O melhor jeito é fazer uma ligação. Nada de ir pessoalmente. Porque os bancos vão convencer você pessoalmente a pagar a dívida. Você vai se sentir mal [por dever] e não vai pagar da forma que é melhor para você, vai pagar do jeito que é melhor para o banco. E também existem os feirões, como o Desenrola Brasil, que ajudam a quitar essas dívidas.

Com tantas contas para pagar, é possível guardar algum dinheiro?
Aconselho as pessoas a fazer uma reserva de emergência. Você soma suas despesas fixas e variáveis e multiplica esse valor pelos meses que você gostaria de montar uma reserva. Mas eu recomendo muito que, enquanto a pessoa está pagando as dívidas, ela guarde o que puder. Pode começar com R$ 10, R$ 20, R$ 30. Não precisa esperar sobrar para guardar — até porque, no final, nunca sobra. Quando você está com o dinheiro no bolso, aí que o gás acaba, tem que trocar a resistência do chuveiro, o filho fica doente...

Vamos imaginar que tudo deu certo, as dívidas foram pagas, e sobra um dinheirinho no fim do mês. Qual o próximo passo?
Eu recomendo dois tipos de investimento para quem quer começar a pesquisar e estudar um pouco mais. O primeiro é o CDB de liquidez diária. CDB é certificado de depósito bancário, ou seja, você empresta dinheiro para o banco e ele devolve com juros. E por que liquidez diária? Liquidez diária é porque o dinheiro pode estar na sua mão rapidamente. Então, se investiu hoje e precisa tirar amanhã, você pode tirar amanhã sem problema nenhum aquele dinheiro necessário para algum tipo de emergência. Quase todos os bancos têm esse tipo de CDB. Ele é recomendado para situações de emergência e também é ótimo para objetivos de curto prazo, de seis meses a um ano — para fazer uma viagem, comprar o material escolar, pagar o IPVA, o IPTU. Outro investimento para quem quer fazer uma reserva é o Tesouro Selic. É um investimento de curto prazo também, em que você empresta dinheiro para o governo fazer obras ou algo do tipo, e ele devolve com juros definidos pela Selic, que é uma taxa muito importante da economia, que define os empréstimos, financiamentos, a porcentagem entre eles. Dá para investir a partir de R$ 100.

Muita gente que passou por algum aperto fica com medo de gastar depois de pôr a casa em ordem. Como conciliar a saúde financeira com conquistas como a casa própria ou um carro novo?
Olhe, acaba acontecendo mesmo de as pessoas quererem guardar tudo com medo de voltar à estaca zero, tem esse trauma. Eu vejo que as pessoas acabam sendo muito cruéis com elas mesmas, porque tem essa pressão financeira, sabe? Para começar a olhar isso [de uma maneira saudável], tem que montar uma planilha financeira, conversar com a família, o amigo, a pessoa que está ali do seu lado, para entender quais são seus objetivos de verdade e quais metas você quer ver realizadas. E fazer isso aos poucos.

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